Subjetividade


A alguns dias atrás estava ouvindo meu radinho no celular em uma das pausas do trabalho e ouvi um relato de bombeiro que está no Haiti. Me chamou atenção quando lhe perguntaram sobre a organização da distribuição dos alimentos doados e ele respondeu:

- Não somos autorizados a dar nada aos haitianos. Deixar cair uma garafinha de água já é motivo para confusão. –



É inadmissível a forma como a “ajuda humanitária” esta se dando. Milhares de soldados representando países com milhares de interesses que obviamente pouco beiram a simples apoios humanitários. Nos jornais ouvimos a inteções do imperialismo a planos de reconstrução que sabemos bem como se dão.
Ao capitalismo, uma desastre é sempre uma oportunidade.

Esta frase, dita pelo bombeiro, mostra exatamente como se anda pintando o povo haitiano desde a ocupação pelas tropas da ONU. Nos primeiros dias apos o terremoto vimos como a ajuda internacional centralizou suas forças para ajudar as vitimas do desabamento do prédio da ONU. Mas não destinavam ajuda as comunidades mais afetadas... aos que realmente precisavam de garafinhas de água.

Ao discurso de que o povo haitiano precisa dos capacetes azuis, fuzis, tanques blindados ocupando o território para não se matar por alimente, ou seja, que são selvagens, incapazes de organizar de forma solidaria a ajuda internacional, discurso, dito desde o inicio da ocupação, de que a população haitiana é incapaz de decidir sobre seu próprio destino... as comunidades haitianas respondem:

Coloco dois relatos de Jornalistas independentes que estão no Haiti;
Amy Goodman, apresentadora do programa DemocracyNow!

Eles estão recebendo quase nenhuma ajuda. Passamos de uma família para outra, e eles disseram, continuamente, que suas vidas estão nas mãos de Deus. A própria ONU fez a declaração sobre a segurança. E nós queríamos saber a que eles estavam se referindo. Andamos livremente de um lugar para outro. As pessoas estão desesperadas, mas certamente pacíficas (...) eu penso que nós estamos falando de anarquia do governo, a incrível força comunal da comunidade. Estes campos de refugiados, esses campos menores e maiores que o número chega na casa dos milhares, são comunidades organizadas. À noite, eles colocam pedras na rua. Se você não conhecesse essas comunidades, você diria: 'O que está acontecendo aqui? Certo? São estes, você sabe, os anarquistas? Eles são violentos? Eles estão ameaçando?' Eles estão protegendo suas comunidades e aqueles que estão dentro. E eles não querem que as pessoas de fora entrem, especialmente à noite. É extremamente organizado a nível local, entre bairros, as pessoas ajudando-se mutuamente.


O jornalista Kim Ives, que está viajando junto com o DemocracyNow!

as organizacões comunitárias, nós vimos na outra noite em Mateus 25 (bairro onde há um alojamento com cerca de 600 pessoas desabrigadas) , a comunidade onde nós estamos ficando. Um descarregamento. .. um caminhão cheio de comida veio no meio da noite sem avisar. Poderia ter ocorrido uma briga. A organização da população local foi contactada. Eles mobilizaram imediatamente os seus membros. Eles vieram. Organizaram um cordão. Enfileiraram cerca de 600 pessoas que estão ficando no campo de futebol atrás da casa, que também é um hospital, e eles distribuíram a comida de forma ordenada, em porções iguais. Eles eram totalmente auto-suficientes. Eles não precisam dos "Marines". Eles não precisam da ONU. Eles não precisavam de nenhuma dessas coisas que estão nos falando que eles precisam, ditas também pela Hillary Clinton e o ministro do exterior. Essas são coisas que as pessoas podem fazer por elas mesmas e estão fazendo por elas mesmas.


Não podemos absorver o discurso da grande mídia que reflete a necessidade que o capitalismo tem de esconder suas contradições dentro de sua hipocrisia. Se o terremoto devastou o Haiti é por que lá não se construíram estruturas japonesas. E isso é resultado da desigualdade.
Organizado a serviço dos "privilegiados" não se pode esperar que o sistema questione suas contradições. Muito pelo contrário, irá construir na "fatalidade" de um terremoto um negocio lucrativo com suas multinacionais asseguradas pela ocupação da ONU.

É necessário estarmos atentos e amplamente solidários ao Haiti. Mas que esta solidariedade seja haitiana!

http://solidariedadeaohaiti.blogspot.com/

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